Por mais informação digital que tenhamos, por maior que seja a evolução das mídias e dos aparatos em informática, por mais que se discuta e se confirme a importância, a força e os impactos das tecnologias na Educação e nas práticas sócio-culturais em geral, continuamos nos submetendo a processos de seleção no tradicional formato analógico: a partir de escritos e garranchos azul cor de Bic em folhas de almaço.
Especialmente em concorrências e concursos para a área das Ciências Humanas e Sociais, em que escrevemos tantas páginas quanto nosso limite intelectual e físico (haja munheca) permitir, essa mudança seria significativa. Sonho com o dia em que as provas sejam realizadas no Word.
Para evitar o plágio e o famigerado "CRTL-C, CTRL-V", bastava realizar a seleção em um laboratório desconectado da Internet, com máquinas dispostas em um layout que impossibilitasse o cruzamento de olhares e textos. Os candidatos teriam também que ser revistados (nada de pen-drives, aparelhos celulares, ou objetos que possibilitem transferência de informação), a fim de garantir a inexistência de "arquivos-pesca" trazidos de casa ou enviados via wireless, além de descobrir uma forma de certificar digitalmente os documentos gerados pelos candidatos, o que a essa altura não deve ser tarefa difícil. E claro: os fiscais de prova, em hipótese alguma, poderiam ser dispensados. Deveriam talvez ser duplicados.
Em plena era digit-all, já existe muita gente que não consegue raciocinar diante de uma folha em branco e uma esferográfica, mas desenvolve grandes idéias dando um simples CTRL-N em um editor de texto qualquer. Não que escrever a punho não tenha seu valor; tem e sempre terá. Porém, cada vez mais, a habilidade de escrever está sendo reconstruída a partir de um raciocínio não-linear, modificado à velocidade dos bits, e a idéia de "apagar" vai sendo substituída pelo "editar". Borracha, não. Back-space ou delete.
E na hora de apresentar um raciocínio linear - nas terríveis linhas em branco do papel almaço - chega o desespero. O primeiro parágrafo demora. O segundo bloco de texto vem meio medroso. O terceiro é um parto de gêmeos siameses. E depois que o quarto parágrafo foi escrito, é que se percebe que ele seria uma belíssima introdução. E vem outra idéia, e outra, e, enfim, chega a forma ideal de expressar aquele pensamento, melhor do que qualquer conjunto de palavras poderia expressá-lo.
Mas fazer o quê: não há tempo para o luxo do rascunho, não há papel suficiente, e a sentença da idéia prematura já está decretada e cristalizada para sempre no documento que comprova a incapacidade humana de escrever o que há de melhor em seu âmago intelectual logo nos primeiros rabiscos.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Até agora, ele ainda não fez as pazes comigo. Eu conversava com uns amigos quando percebi que ele estava ficando de cabeça quente. Talvez porque andei dando muitas ordens a ele, e tudo ao mesmo tempo. Nós mulheres às vezes temos esses acessos de imperatividades múltiplas. Pedi desculpas, mas em vão. Não respondia, estava estático. Parecia fingir que eu não existia.
Tentei conversar, negociar, mas ele estava incompreensível. Segurei o choro. Como ele podia fazer aquilo comigo, logo agora, que eu tinha tanta coisa de uma só vez na cabeça?
Eu sei que ele também trabalha muito, às vezes até mais do que eu. Eu sei que também não dou sossego a ele, um dia na semana sequer. Eu sei que a gente tá ficando velho, eu e ele. Mas ele sempre conviveu com isso, reclamou um pouco, mas nunca chegamos a esse ponto.
Em meio ao desespero, buscando na memória um motivo pra tudo aquilo, lembrei que há alguns dias, ele tinha comentado que não estava muito bem.
Será que é isso?, pensei. Será que algum vírus estranho tomou posse do coitado, e por isso ele está assim tão temperamental? Mas não podia ser, há pouco tempo tínhamos feito um bom check-up, e nos disseram que tudo estava bem, apesar da idade avançada.
Bem, o fato é que estamos separados. Hoje ele até vai dormir fora. Vamos ver se amanhã ele volta. Ele sabe que eu dependo dele, e ele também depende de mim... Se ele voltar, eu tento esquecer todo o sofrimento que ele me causou no passado, sem mágoas nem ressentimentos.
Mas se ele não voltar, sinto muito. Vou ter que trocá-lo por outro. Quem sabe um Core Duo da Toshiba, com 160GB de HD e 2GB de memória? A fila anda. Já estou paquerando.
Tentei conversar, negociar, mas ele estava incompreensível. Segurei o choro. Como ele podia fazer aquilo comigo, logo agora, que eu tinha tanta coisa de uma só vez na cabeça?
Eu sei que ele também trabalha muito, às vezes até mais do que eu. Eu sei que também não dou sossego a ele, um dia na semana sequer. Eu sei que a gente tá ficando velho, eu e ele. Mas ele sempre conviveu com isso, reclamou um pouco, mas nunca chegamos a esse ponto.
Em meio ao desespero, buscando na memória um motivo pra tudo aquilo, lembrei que há alguns dias, ele tinha comentado que não estava muito bem.
Será que é isso?, pensei. Será que algum vírus estranho tomou posse do coitado, e por isso ele está assim tão temperamental? Mas não podia ser, há pouco tempo tínhamos feito um bom check-up, e nos disseram que tudo estava bem, apesar da idade avançada.
Bem, o fato é que estamos separados. Hoje ele até vai dormir fora. Vamos ver se amanhã ele volta. Ele sabe que eu dependo dele, e ele também depende de mim... Se ele voltar, eu tento esquecer todo o sofrimento que ele me causou no passado, sem mágoas nem ressentimentos.
Mas se ele não voltar, sinto muito. Vou ter que trocá-lo por outro. Quem sabe um Core Duo da Toshiba, com 160GB de HD e 2GB de memória? A fila anda. Já estou paquerando.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Caldo de letrinhas
Derramei um copo de água gelada no meu teclado, agora há pouco. Quinhentos ml. Escrevi quinhentos por extenso porque perdi o sete, o oito, o nove e, óbvio, o zero. Estou sem o "page down", sem o "end", sem os parênteses, sem a arroba, sem o "E" chique que fica em cima do sete, sem o cifrão, sem o asterisco que fica em cima do oito. Por sorte, este último, assim como os números, se multiplicam no tecladinho numérico.
Grandes perdas. Mas dentre todas as teclas perdidas hoje à tarde, a exclamação é a que eu mais lamento nessa tragédia digital.
A exclamação é responsável por grande parte das emoções do texto. Transmite sentimentos desde a simpatia, a gargalhada, a alegria, a excitação. Mas também a raiva, a indignação, a ordem, especialmente se estiver acompanhada das arrogantes letras maiúsculas.
Exclamar vem do latim "exclamare", que significa pronunciar em voz alta, gritar, bradar, vociferar. A exclamação, por sua vez, é um grito de alegria, surpresa ou dor. Exclamação é voz e isso não sou eu quem diz, é o dicionário.
Como viver sem exclamações? O mundo vira dúvidas e certezas, em suas interrogações, reticências e pontos-finais. Perguntas e respostas, ação e reação. Pura burocracia e mecanicidade.
A exclamação é o ponto mais humanizado, mais sentimental, mais emocionante. Devia ter sido a primeira a pular no bote salva-vidas, mas sabe Deus por que não o fez. Talvez estivesse muito temperamental no momento.
O mais irônico é que, na hora que o dilúvio aconteceu, eu estava afogada em um livro sobre tipografia, tipologias, fontes, famílias e tipias. Até agora estou tentando descobrir alguma relação inteligente para essa estranha coincidência.
Grandes perdas. Mas dentre todas as teclas perdidas hoje à tarde, a exclamação é a que eu mais lamento nessa tragédia digital.
A exclamação é responsável por grande parte das emoções do texto. Transmite sentimentos desde a simpatia, a gargalhada, a alegria, a excitação. Mas também a raiva, a indignação, a ordem, especialmente se estiver acompanhada das arrogantes letras maiúsculas.
Exclamar vem do latim "exclamare", que significa pronunciar em voz alta, gritar, bradar, vociferar. A exclamação, por sua vez, é um grito de alegria, surpresa ou dor. Exclamação é voz e isso não sou eu quem diz, é o dicionário.
Como viver sem exclamações? O mundo vira dúvidas e certezas, em suas interrogações, reticências e pontos-finais. Perguntas e respostas, ação e reação. Pura burocracia e mecanicidade.
A exclamação é o ponto mais humanizado, mais sentimental, mais emocionante. Devia ter sido a primeira a pular no bote salva-vidas, mas sabe Deus por que não o fez. Talvez estivesse muito temperamental no momento.
O mais irônico é que, na hora que o dilúvio aconteceu, eu estava afogada em um livro sobre tipografia, tipologias, fontes, famílias e tipias. Até agora estou tentando descobrir alguma relação inteligente para essa estranha coincidência.
quarta-feira, 4 de junho de 2008
O texto já existia: publiquei em outro blog, há exatos 4 anos. Mas é tão atual... Resolvi republicar.Quando foi mesmo a última vez que eu fiz prova? Ah, sim. Março de 2002. Esse negócio de estudar propaganda enfia a gente numa roda-viva de fazer trabalho, entregar campanha, criar anúncio, escrever textos, desenhar logomarca... e o trivial método de cobrar conhecimento agora nos parece uma coisa retrógrada, ultrapassada.
E eis que aqui estou, há três dias, agarrada a textos e marca-textos, livros, rascunhos, notas de aula, cadernos copiados e, claro, dicionário brasileiro, espanhol e inglês. "Será que vai dar tempo? Será que essa matéria vai cair? Será que eu preciso decorar todos os paradigmas?" O professor disse que as provas dele costumam ser respondidas com uma ou duas linhas. E desde quando eu escrevo qualquer coisa que faça sentido em menos de duas linhas? Só se for meu nome!
E eu fico me lembrando dos bons tempos do Christus, mais uma vez. T1, T2, MA... O desespero rotineiro de duas em duas semanas. A eterna certeza do "papoco", quase nunca confirmada. As noites viradas com as amigas (geralmente a Ramylle), regadas a Coca-Cola, chocolate, café ou qualquer coisa que tivesse cafeína e cor preta. Os sóis que nasciam atrás das nossas olheiras enquanto a gente estudava o movimento retilíneo uniforme. O café da manhã mal tomado para economizar tempo e poder revisar o que foi estudado na madrugada. As mil e uma orações antes de receber as folhas grampeadas de A4, com o brasão do Christus no canto esquerdo. O cuidado ao preencher cabeçalhos perguntando nome, número, data, professor, turma. E o terrível espaço em branco onde (em no máximo um mês) estaria a nossa sentença: nota azul ou nota vermelha? (Azul, na maioria das vezes.)
E o clima de tensão, na hora que seu nome era pronunciado pelo professor, que lhe esperava com o resultado na mão debaixo do olhar curioso e ansioso de toda a turma. E os cálculos na fórmica da carteira, na tentativa de desenhar antecipadamente os números do boletim. Ou de saber o grau de esforço que seria dispendido no próximo teste, em vista de alcançar pelo menos a média.
Se eu sinto saudade disso? Claro. Nunca pensei que pudesse sentir falta de entender o dia-a-dia de uma briófita. Mas hoje, estudando Comunicação Comparada, eu até acho que elas são seres simples demais.
sexta-feira, 16 de maio de 2008
"Conhecer e pensar não significa chegar à verdade absolutamente certa, mas sim dialogar com a incerteza".(Espero que eu acompanhe esse raciocínio na prova de domingo e na vida inteira.
Edgar Morin
"O ensino nunca foi uma profissão tranqüila. Sempre teve de confrontar com o outro, sua resistência, sua opacidade, suas ambivalências. Entretanto, devido às suas múltiplas transformações, parece cada vez mais difícil ensinar e, sobretudo, fazer aprender".
Philippe Perrenoud
E espero que eu me conforme logo que a vida é feita de incertezas e que o único controle que a gente tem na vida é o da TV.)
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.:: música do dia ::.
In the Colors
Ben Harper
When your whole world is shaken
From all the risks we have taken
Dance with me dance with me into the colors
Of the dusk
When you have awoken
From all the dreams broken
Come and dance with me
Dance with me into the colors
Of the dusk
The paths we're walking on
They crumble behind us
But if we leave now
They will never
They will never find us
And if this crazy world spins itself
Down to dust
I want to be with you
I'm gonna be with you
In the colors
When you again start hoping
With your arms wide open
Come on, dance with me
Oh, dance with me
Into the colors of the dusk
And all will be right
Will be right
Dancing like water with the light
Oh, dance with me
Dance with me
Into the colors of the dusk
Oh, dance with me into the colors
Of the dusk
Dance with me into the colors of the dusk
quinta-feira, 10 de abril de 2008
.:: sessão nostalgia ::.
Lindo Balão Azul
A Turma do Balão Mágico
Eu vivo sempre no mundo da lua
Porque sou um cientista
O meu papo é futurista e lunático
Eu vivo sempre no mundo da lua
Tenho alma de artista
Sou um gênio sonhador e romântico
Eu vivo sempre no mundo da lua
Porque sou aventureiro
Desde o meu primeiro passo pro infinito
Eu vivo sempre no mundo da lua
Porque sou inteligente
Se você quer vir com a gente
Venha que será um barato
Pegar carona nessa cauda de cometa
Ver a via láctea estrada tão bonita
Brincar de esconde esconde numa nebulosa
Voltar pra casa nosso lindo balão azul
Lindo Balão Azul
A Turma do Balão Mágico
Eu vivo sempre no mundo da lua
Porque sou um cientista
O meu papo é futurista e lunático
Eu vivo sempre no mundo da lua
Tenho alma de artista
Sou um gênio sonhador e romântico
Eu vivo sempre no mundo da lua
Porque sou aventureiro
Desde o meu primeiro passo pro infinito
Eu vivo sempre no mundo da lua
Porque sou inteligente
Se você quer vir com a gente
Venha que será um barato
Pegar carona nessa cauda de cometa
Ver a via láctea estrada tão bonita
Brincar de esconde esconde numa nebulosa
Voltar pra casa nosso lindo balão azul
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